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Os segredos de mais uma febre gourmet

Chefs mexicanos confessam: não há paletas recheadas na terra de Chesperito

05/02/2015

Se você já se perguntou se no México as pessoas andam pelas ruas carregando picolés pesados o suficiente para quase cair das mãos em um momento de distração, como tem acontecido por aqui, saiba que sim. As paletas são um doce de apelo popular para os mexicanos. Enquanto você, na infância, corria atrás do sorveteiro em busca de um picolé que custava o equivalente a poucas moedas, no México as crianças esperavam pelo carrinho do paletero em frente à escola.

 

Mas as semelhanças entre a paleta consumida no México e aquela que tem vendido feito água no Brasil se limitam ao formato. Por lá, são raros os pontos de venda do doce, que é oferecido principalmente nas ruas. E morango com leite condensado, creme com brigadeiro ou banana com creme de avelã são sabores inaceitáveis, pois a paleta genuinamente mexicana é feita a partir de frutas e água. E só.

 

“A marca mais tradicional no México é a La Michoacana Paleteria y Neveria, que sempre foi vendida em carrinhos. Recentemente inaugurou uma loja simples, dessas de centro da cidade, mas de forma alguma como um produto hype. É popular e barato. E não se usa creme ou recheio”, explica o restaurateur mexicano Hugo Delgado, que vive no Brasil há 15 anos. Por lá, um dos sabores mais comuns é flor de hibisco.

 

Delgado se diverte ao dizer que, provavelmente, em São Paulo existem mais paleterias do que na Cidade do México e acredita que essa febre foi um golpe de sorte. “Se fosse paletas amazonenses em vez de mexicanas talvez não tivesse sucesso, pois não tem o estrangeirismo que o brasileiro adora. É como aquela música, o ‘Ai se eu te pego’, não dá para explicar o que aconteceu, mas pegou”, analisa em tom de brincadeira.

 

Também nascida no México, a chef Maria Paulina Etchegaray preserva pouco sotaque, mas não se esquece das paletas que consumia quando era criança. E é enfática: “O tamanho é igual ao vendido aqui, mas no México não existe sorvete recheado”. Um dos seus sabores preferidos na terra natal é arroz doce, ou “arroz con leche”. Para quem achou estranho, imagine quando Maria Paulina viu a versão biscoito recheado vendida no Brasil.

 

O primeiro contato da chef com as paletas brasileiras foi após um desentendimento com o marido. “Ele queria me agradar, então saiu de casa e trouxe 10 sorvetes. Fiquei interessada e perguntei quanto ele havia gastado. Quando ele disse R$ 100, achei o preço bem absurdo.”

 

Para a chef, a questão das paletas “adaptadas” é um pouco mais profunda. Ela acredita que há uma construção de estereótipo nas marcas comercializadas no Brasil, o que a incomoda. “As paletas recheadas não representam meu país. A decoração das paleterias também não. Nem todos os mexicanos têm bigode, nem todas as mexicanas usam trança, não andamos por aí usando sombreros”, reflete. (Fonte: Estadão PME)

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